Enquanto o gerente de projetos gesticulava freneticamente, expelindo uma chuva fina de saliva sobre a mesa de reuniões ao pregar sobre “sinergia” e “vestir a camisa”, a única coisa que eu conseguia focar era na mancha de suor que crescia sob suas axilas. Esqueçam as teorias elegantes sobre o capitalismo humanizado ou a missão corporativa. Aquilo ali, aquela cena grotesca de um primata de terno tentando coagir outros primatas a sorrirem enquanto o barco afunda, é a verdade nua e crua. Uma organização não é um “time” ou uma “família”. É um sistema digestivo gigante e ineficiente, projetado apenas para extrair energia vital de uns para sustentar a obesidade mórbida de outros.
Entropia Gordurosa
Olhem para a estrutura ao redor. Não há nobreza no trabalho moderno. O que chamam de “cultura organizacional” assemelha-se tragicamente àquela coxinha de frango exposta na vitrine de um posto de gasolina de beira de estrada às quatro da manhã. Para manter aquela crosta dourada e enganosamente apetitosa, é necessário um gasto energético constante e absurdo. A lâmpada de aquecimento precisa estar sempre ligada, a eletricidade precisa fluir, o óleo precisa ser reposto. No segundo em que a energia cessa — ou quando o estagiário exausto esquece de girar a bandeja —, a realidade se impõe. A massa murcha, a gordura congela em placas esbranquiçadas e o recheio revela-se como o que sempre foi: uma pasta amorfa de restos indesejáveis. Nós somos os elétrons correndo desesperados pelos fios apenas para manter essa coxinha aquecida, lutando contra a inevitável putrefação que aguarda qualquer sistema deixado à própria sorte.
E o que ganhamos com esse esforço de Sísifo? A tal “lealdade” que o RH exige nos formulários de avaliação de desempenho nada mais é do que um defeito evolutivo, um disparo químico de ocitocina no cérebro de um mamífero assustado que teme ser expulso do bando e morrer de frio. Não é amor à marca. É pavor do boleto bancário. É o instinto de sobrevivência operando no modo de pânico silencioso, enquanto o seu colega de baia mastiga um sanduíche de atum com a boca aberta, produzindo um ruído úmido que faz você questionar a viabilidade do projeto humano.
O Trono da Decadência
O mais insultante, porém, é observar como a elite dessa cadeia alimentar tenta se isolar do cheiro de mofo e desespero que permeia o carpete do escritório. O diretor, aquele sujeito cuja única competência comprovada é a capacidade de delegar culpas, cria para si um trono no meio do lixo. É grotesco ver como ele deposita sua massa corporal excessiva, cultivada em almoços de negócios que duram três horas, sobre o assento de uma Cadeira de Escritório Ergonômica de Couro Premium, cujo sistema de ajuste lombar custa mais do que o salário de três faxineiros. Ele reclina ali, ouvindo o ranger suave do couro legítimo abafando os gritos silenciosos do balanço patrimonial, acreditando piamente que aquele suporte ergonômico o protege da gravidade da própria incompetência.
A farsa continua na sua mesa de mogno. Para assinar a demissão de um pai de família ou aprovar um orçamento superfaturado para consultorias inúteis, ele não usa uma esferográfica comum. Não, ele precisa de uma Caneta-tinteiro de Edição Limitada, um objeto fálico de resina preciosa e ouro que serve apenas para dar um peso teatral a decisões medíocres. O contraste entre o luxo desses fetiches corporativos e a miséria espiritual do ambiente é o que causa a verdadeira náusea. É como passar batom em um cadáver em decomposição.
Miséria Térmica
Não se enganem com discursos sobre sustentabilidade ou perenidade. Nada disso se sustenta. Estamos apenas queimando recursos — nossa saúde, nosso tempo, nossa paciência — para adiar o resfriamento total. O escritório é um forno crematório de ambições, onde a única coisa que realmente é produzida é calor, ruído e relatórios que ninguém lerá. A entropia não é uma teoria física distante; é a impressora que sempre trava quando você tem pressa, é o ar condicionado que pinga na sua cabeça, é a sensação de que, não importa o quanto você trabalhe, a pilha de problemas na segunda-feira será maior.
Não há vitória cósmica, nem redenção. O universo não vai nos salvar com uma grande implosão dramática. O que resta é apenas a vulgaridade do cotidiano: a carteira vazia, a gastrite atacando antes do almoço e o som estridente do despertador que tocará amanhã, e depois, e depois, exigindo que você levante para girar a coxinha mais uma vez.

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