Entropia Gourmet
Esqueça o que eu disse sobre rigidez estrutural na nossa última conversa. Estava sóbrio demais. A verdade nua e crua, despida dessas ilusões de controle que os MBAs vendem em aeroportos, é que toda estratégia de negócios é apenas uma tentativa patética e caríssima de adiar o inevitável triunfo do caos. O universo tende à desordem com uma obstinação que faria inveja a qualquer funcionário público em operação padrão, e o seu CEO, com aquele sorriso de porcelana e vocabular de linkedin, acha realmente que um Power Point bem diagramado tem o poder de revogar a Segunda Lei da Termodinâmica. É de uma ingenuidade que beira o insulto pessoal.
No tal "mundo corporativo", a eficiência é vendida como uma virtude moral, mas é apenas um sintoma clínico de pânico. Erwin Schrödinger, muito antes de virar meme por causa de um gato hipotético, definiu a vida como algo que se alimenta de "neguentropia". O organismo — ou a empresa — precisa sugar ordem do ambiente para não virar uma sopa homogênea de átomos. Mas o que a sua firma realmente consome para manter essa falsa coesão não é informação qualificada; é a alma dos estagiários e a paciência dos clientes. É um vampirismo institucionalizado e burocrático. Vocês tentam manter a fachada de um castelo europeu, mas a fundação é feita de areia movediça e planilhas fraudadas. É o equivalente existencial a andar por aí com uma Carteira de Couro de Crocodilo de R$ 15.000 estufada não com notas de alto valor, mas com recibos fiscais de almoços que a contabilidade se recusou a reembolsar. A forma é luxuosa, o conteúdo é lixo térmico.
O equilíbrio termodinâmico, meu caro, é a morte. Quando um consultor engravatado diz que quer "estabilizar a operação", ele está, tecnicamente, decretando o óbito da inovação. Uma organização viva deve ser uma estrutura dissipativa de Prigogine, operando longe do equilíbrio, num estado de quase-colapso constante onde a ordem emerge do caos. Mas olhe para o seu escritório: um marasmo de gente morta por dentro, gerando apenas calor corporal e dióxido de carbono em baias cinzentas. A estrutura dissipativa exige fluxo constante de energia para manter a complexidade. Mas nas empresas modernas, a viscosidade da burrice é tão alta que o fluxo estagna. A energia se dissipa em atrito puro: disputas de ego irrelevantes, processos de aprovação que exigem doze assinaturas digitais para comprar um clipe de papel, e aquela sensação pegajosa de estar preso num elevador lotado com o ar condicionado quebrado no verão do Rio de Janeiro. Você sente sua vida escorrendo pelo ralo, minuto a minuto, enquanto ouve um gestor falar sobre "sinergia".
Que tédio monumental. Garçom, traz outra, que essa aqui esquentou.
E então surgem os profetas do "Agile" e das "Organizações Teal", vendendo a autogestão como se fosse a cura milagrosa para o câncer organizacional. O que eles propõem é basicamente deixar o sistema delirar sozinho, na esperança vã de que, do ruído branco, surja uma sinfonia de Beethoven. Spoiler: não surge. O que acontece é uma dissipação de energia tão ineficiente que faria uma máquina a vapor do século XIX parecer tecnologia alienígena de ponta. Injeta-se capital, injeta-se "engajamento" (um termo gourmet para exploração voluntária), e o resultado? Reuniões intermináveis onde se decide marcar outra reunião, anotadas com pompa cerimonial em uma Caneta Tinteiro de Titânio Edição Limitada que custa o PIB de um pequeno país insular. O input é energia vital humana; o output é burocracia, tendinite e slides que ninguém vai ler. É a termodinâmica da mediocridade aplicada em escala industrial.
O sistema não se auto-organiza; ele se auto-sabota. A informação não circula, ela coagula nas artérias da média gerência, criando trombos de incompetência que matam qualquer iniciativa antes que ela chegue ao cérebro da operação. Minha cabeça está latejando com tanta estupidez.
A neurociência explica que detestamos a incerteza porque ela gasta muita glicose. O cérebro primitivo quer previsibilidade para economizar energia. Por isso inventamos líderes. O "líder" é um xamã moderno cujo único trabalho é fingir que sabe para onde o barco está indo, enquanto todos remam em círculos no meio de um redemoinho. É uma ilusão reconfortante, como olhar para as engrenagens complexas de um Relógio Suíço de Alta Relojoaria e acreditar que, porque o mecanismo é preciso e custa o preço de um apartamento, o tempo está sob nosso controle. Não está. O relógio tiquetaqueia a sua irrelevância com uma precisão suíça, enquanto você envelhece preenchendo relatórios de conformidade que serão arquivados no esquecimento.
No fim das contas, a neguentropia estratégica não passa de um eufemismo chique para a nossa teimosia em não aceitar que somos poeira organizada temporariamente. As empresas nascem, crescem, ficam estúpidas e morrem. O resto é decoração de interiores e ego inflado. A entropia sempre vence, e ela não aceita vale-refeição ou stock options. Agora, suma daqui antes que eu comece a cobrar pela consultoria moral, o preço seria alto demais para o seu orçamento.

コメント