Como discutíamos na última vez — entre o cheiro de cigarro barato que impregna a varanda deste boteco e a constatação matemática de que a sua aposentadoria é uma assíntota que nunca toca o eixo da realidade —, a estabilidade é uma mentira. O ser humano, esse bípede sem penas e cheio de ansiedade, adora acreditar que "organizar uma empresa" é um ato nobre, quase divino. Bobagem. É apenas uma luta frenética, suada e fadada ao fracasso contra a segunda lei da termodinâmica. Ilya Prigogine, se não estivesse ocupado demais sendo um Nobel morto, diria que o seu escritório "open space" é, por definição, uma estrutura dissipativa. Ele se mantém vivo exportando caos. E adivinhe quem é o lixão onde esse caos é despejado? Exato. Você.
A biologia do desgaste
Pense na sua firma como um motor térmico ineficiente. Para que o CEO possa falar em "propósito" e "ESG" numa sala climatizada a dezoito graus, uma quantidade obscena de desordem precisa ser varrida para baixo do tapete social. O "trabalho", essa maldição bíblica gourmetizada pelo LinkedIn, é o processo de converter sua energia química — aquele café da manhã industrializado que você engoliu sem mastigar — em "ordem" corporativa. Planilhas alinhadas, e-mails respondidos com falsa cordialidade, relatórios que ninguém lê. O problema é estritamente biológico: seu cérebro não é um processador de silício; é uma massa de gordura e eletricidade projetada para caçar, fugir e se reproduzir.
Quando você força essa máquina orgânica a processar burocracia por doze horas seguidas, você não está sendo "produtivo"; está apenas acelerando a oxidação das suas próprias células. É como tentar rodar um software de mineração de criptomoedas num computador dos anos 90; a ventoinha grita, o sistema trava e, eventualmente, algo queima com aquele cheiro inconfundível de plástico derretido e sonhos frustrados.
O fetiche da ordem
A gestão moderna, com seu vocabulário de autoajuda barata, chama o desgaste do material de "resiliência". Resiliência é o caralho. Na física dos materiais, é o quanto você aguenta apanhar antes de se deformar permanentemente. Eles vendem a ideia de que "vestir a camisa" é um ato de paixão, mas a neurociência sabe que é puro sequestro de dopamina. O sujeito, desesperado para sentir que controla o próprio destino no meio desse moinho de carne, recorre ao fetiche da mercadoria como tábua de salvação.
Ele gasta o equivalente a três aluguéis numa caneta tinteiro de luxo, com o corpo em resina preciosa e ponta de ouro, acreditando piamente que a tinta nobre que flui daquele objeto vai, por milagre, organizar o caos da sua agenda vazia. É uma cena patética. Ele segura aquele instrumento de escrita como se fosse um cetro real, uma extensão fálica de poder, enquanto preenche formulários humilhantes de reembolso de despesas de táxi. A caneta brilha, imponente e aristocrática, sobre uma mesa de aglomerado que está descascando nas bordas, servindo de totem para uma autoridade que ele nunca terá e para uma elegância que o ambiente lhe nega.
Entropia e úlceras
O ambiente corporativo é um sistema aberto que se alimenta de vidas humanas. A tal "cultura organizacional" é apenas o campo de força magnético que tenta manter os átomos humanos alinhados na mesma direção, mas o custo energético disso é brutal. Quanto mais você tenta impor ordem artificial — reuniões de alinhamento que poderiam ser um e-mail, feedbacks 360 graus que servem apenas para destruição de ego, dinâmicas de grupo que fazem qualquer adulto funcional querer se exilar —, mais calor você gera.
Esse calor é a fricção social: a fofoca venenosa no corredor, o ódio silencioso pelo colega que mastiga de boca aberta ao seu lado, a úlcera gástrica que pulsa em compasso perfeito com as notificações do Teams. Você está trocando sua saúde, que é um estado biológico de baixa entropia, pelo lucro da empresa. Você decai, o CNPJ prospera. É uma transferência direta de vitalidade. No final do expediente, você não é um profissional realizado; é um resíduo térmico, um bagaço exaurido que se arrasta para casa para encarar a tela da TV como se fosse uma anestesia geral, incapaz de formular um pensamento complexo sequer.
O abismo do silêncio
E por que insistimos nessa tortura voluntária? Porque o silêncio é aterrorizante. A função social do trabalho não é produzir riqueza, é produzir ruído. Se pararmos de girar a roda, teremos que encarar o abismo existencial. Teremos que notar que o universo é vasto, gelado e absolutamente indiferente aos nossos KPIs e metas trimestrais. Então, criamos essas estruturas longe do equilíbrio, vivemos na corda bamba da ansiedade, correndo apenas para ficar no mesmo lugar.
Mas sistemas longe do equilíbrio são inerentemente instáveis. Uma flutuaçãozinha no mercado, uma inteligência artificial nova, uma mudança de humor de um acionista majoritário, e puf. A estrutura colapsa. O trabalhador, que sacrificou seus joelhos e sua sanidade achando ser uma peça fundamental da engrenagem, descobre que era apenas combustível fóssil barato. Garçom, desce mais uma dose e traz a conta. O universo vai acabar em morte térmica de qualquer jeito, não há motivo racional para economizar fígado agora.

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