Sente-se e cale-se, por favor. O garçom já sabe que meu uísque não admite gelo — a diluição é o primeiro passo para a mediocridade, uma arte que o setor público brasileiro domina com uma maestria quase divina e irritante. Estava aqui, observando pela janela aquela reforma interminável na praça em frente. Uma obra que ostenta a promessa de “eternidade” em granito vagabundo e cimento mal misturado, mas que, na verdade, não passa de um cadáver sendo maquiado com o dinheiro que você não terá para a sua aposentadoria.
É fascinante, de um jeito mórbido, como a gestão pública insiste na retórica da “sustentabilidade”. Eles falam disso como se fosse uma virtude moral inabalável, ignorando a realidade brutal de que toda organização é um organismo esfomeado e parasitário. Para manter o brilho artificial de um gabinete refrigerado a dezoito graus, o sistema precisa vomitar o caos sobre o resto da cidade. O que eles chamam de “ordem” é apenas o adiamento caro da podridão, pago com o suor de quem acorda às cinco da manhã para comer pão dormido em um ônibus barulhento e lotado.
Inércia
O problema fundamental é que o Estado tenta tratar a infraestrutura com a arrogância de quem acredita ser imortal. É a mesma ilusão patética daquele burocrata pançudo, com o terno brilhando de desgaste nos cotovelos, que gasta o orçamento anual de uma escola em uma caneta-tinteiro de ouro e resina apenas para assinar papéis que ninguém jamais lerá. A tinta seca no reservatório, a ponta de ouro arranha o papel barato, a burocracia trava e o sistema colapsa sob o peso da própria gordura institucional. Essa caneta é o símbolo perfeito do nosso fracasso: um objeto de luxo estéril flutuando em meio a um deserto de ineficiência e descaso.
A inércia aqui não é um conceito físico abstrato; é visceral, tem cheiro de café velho e carpete mofado. É o peso gravitacional daqueles processos parados há décadas, acumulando poeira e alimentando traças em prateleiras de aço enferrujado que gemem sob a carga da incompetência. Cada carimbo batido com força desnecessária é um grito de resistência contra o progresso real. A máquina pública não se move porque está ocupada demais mantendo o próprio metabolismo lento, como uma jiboia que engoliu um boi inteiro e agora jaz paralisada no sol quente, esperando que a digestão — ou a morte — chegue primeiro. O que vendem como “planejamento estratégico” é apenas o nome bonito que dão para o ato covarde de empurrar a sujeira para debaixo de um tapete que já está rasgado e encardido.
Dissipação
A verdadeira definição de “sustentabilidade” em uma organização estatal é a sua capacidade monstruosa de exportar a desordem para a vida do cidadão. Para que um político possa sorrir, relaxado e impune, em uma poltrona Aeron de design ergonômico que custa o preço de um carro popular usado, alguém, em algum lugar, precisa viver com o esgoto a céu aberto na porta de casa. É um jogo de soma zero, cruel e direto. O luxo silencioso de um escritório ministerial é alimentado pela degradação barulhenta das calçadas e pelo cheiro acre de urina nos viadutos do centro.
Pense naquele rodízio de carne barato na beira de uma estrada esquecida por Deus. Você entra com a ilusão de fartura, seduzido pelo cheiro de gordura queimada, mas sai com uma azia que queima como o inferno e a sensação nítida de ter sido enganado. As instituições públicas são exatamente esse rodízio. Elas recebem cargas colossais de impostos, devoram a riqueza produtiva, mas a entrega real é uma carne dura, fria e requentada. A energia social se dissipa em reuniões inúteis que poderiam ter sido e-mails, em cafezinhos superfaturados e em “comitês de crise” que só servem para decidir o cardápio do próximo almoço oficial. É a termodinâmica da pilantragem: o calor gerado pela fricção de mãos sujas que se lavam umas às outras é a única coisa que realmente aquece as engrenagens deste país.
Entropia
O universo odeia a sua ponte de concreto armado. Ele despreza o seu asfalto novo. A natureza tem uma fome insaciável e violenta por desmoronamentos e ruínas. O que o ser humano, em sua arrogância típica, chama de “manutenção”, é apenas uma tentativa patética e temporária de lutar contra o destino final de todas as coisas. É como tentar secar um bloco de gelo com um secador de cabelo enquanto se está dentro de um forno. A cada remendo malfeito no buraco da rua, a estrutura interna da cidade pede socorro, exausta de ser mantida viva por aparelhos que custam milhões e funcionam mal.
Aquela sensação fugaz de conforto que você sente ao ver uma inauguração de obra com faixas e discursos é apenas um erro químico no seu cérebro, uma dose de dopamina barata que ignora o fato de que, em dois anos — ou menos —, a chuva ácida e a negligência criminosa transformarão tudo aquilo em um cenário digno de um filme de guerra de baixo orçamento. A entropia não é um conceito de livro didático; é o mofo negro crescendo na parede da sala de espera do hospital, é o sinal de trânsito que pifa no exato momento em que a tempestade começa, é a irritação profunda de descobrir que o seu documento “perdeu a validade” por um erro de digitação de um estagiário entediado que odeia a própria vida.
O Vazio
Não há solução, entenda isso de uma vez. O equilíbrio é uma ficção para crianças ou para quem acredita em contos de fadas econômicos. Toda organização burocrática é um motor de combustão interna que está, neste exato momento, fundindo o cabeçote por falta de óleo e excesso de atrito. O que temos não é gestão, é um adiamento da catástrofe, uma maquiagem pesada e vulgar em um rosto que já esqueceu o que é juventude há muito tempo.
Ficamos aqui, sentados, observando o medidor de temperatura subir para o vermelho enquanto o cheiro de borracha queimada invade a sala. E o pior não é o desastre iminente, é a mediocridade absoluta de todo o processo. Se vamos colapsar, que fosse com algum estilo, não com esse lamento monótono de uma repartição pública que fecha para o almoço e nunca mais abre as portas.
Quero ir embora. O garçom já trouxe a conta, e o valor é um insulto à lógica matemática. Mas, pelo menos, é uma transação honesta: eu pago caro para esquecer, por uma hora, que o mundo lá fora está se desintegrando enquanto você tenta dar um nome científico para a sua própria ruína. O caos sempre vence, e ele não aceita parcelamento.

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