A farsa da “cultura organizacional” é, com toda a certeza, o maior esquema de pirâmide emocional do século XXI, uma camada de maquiagem barata rebocada sobre o rosto de um cadáver em avançado estado de decomposição. Passamos nossas vidas sentados em salas de reunião que cheiram a café requentado e desespero, ouvindo gurus de terno de linho — ou pior, aqueles de camiseta de algodão orgânico que custa o equivalente ao aluguel de um estagiário — discorrerem sobre “missão, visão e valores”. Eles agem com a solenidade de quem está fundando uma nova religião, mas a realidade física é brutalmente mais simples: estão apenas tentando gerenciar o inevitável aumento da desordem. No fundo, qualquer empresa, da padaria da esquina à gigante do Vale do Silício, não passa de uma máquina de processar caos, transformando a energia vital (e finita) dos funcionários em relatórios que ninguém lê e dividendos que eles nunca verão.
Imagine que uma organização é como aquela feijoada gordurosa de domingo: se você não souber equilibrar o fogo e a ordem precisa dos ingredientes, tudo vira uma massa amorfa e intragável que garantirá azia pelo resto da semana. O mercado, contudo, adora a “gourmetização” do óbvio, transformando o ato brutal de sobreviver ao expediente em um “ecossistema de inovação”. Esqueceram-se de que, pela Segunda Lei da Termodinâmica, a desordem — a entropia — sempre vence no final. O seu crachá é apenas um bilhete de loteria em um sorteio onde o único prêmio garantido é o colapso térmico.
Que palhaçada.
Dissipação
Para a física de Ilya Prigogine, sistemas vivos e organizações sociais são definidos como “estruturas dissipativas”. Traduzindo isso para o dialeto corporativo: sua empresa é um saco de lixo furado que precisa ser preenchido com energia mais rápido do que vaza. Para manter aquela planilha de Excel com células coloridas ou o organograma que mais parece um castelo de cartas, a organização precisa, obrigatoriamente, exportar o caos para o ambiente externo. O que chamamos de “lucro” é, sob uma ótica puramente física, apenas o resíduo térmico de um processo de filtragem de incertezas alheias.
O CEO, esse sujeito que ganha bônus milionários por sua suposta “visão estratégica”, não passa de uma válvula de escape glorificada em um motor a combustão prestes a fundir. Se o motor para de dissipar calor — se a empresa para de foder o mercado, de poluir ou de causar fricção competitiva — ela explode ou congela. Empresas que buscam a “harmonia total” e a paz interna estão, na verdade, buscando a morte térmica. No equilíbrio, nada acontece. O equilíbrio termodinâmico é o silêncio absoluto de um cemitério corporativo onde o único som perceptível é o do ar-condicionado filtrando poeira e sonhos mortos. Se você não está gerando ruído e calor, você já é um fantasma estatístico.
Que sono.
Neguentropia
A manutenção dessa ordem artificial exige um esforço hercúleo e uma quantidade obscena de recursos jogados na fogueira das vaidades. É aqui que a “ordem pública” e a gestão moderna se revelam como tentativas desesperadas de reduzir o ruído estatístico da humanidade. O Estado e as corporações querem que você seja um átomo previsível, um parafuso que não range e não questiona a gravidade. Quando o RH implementa um novo software de gestão ou uma política draconiana de compliance, eles estão tentando injetar neguentropia (entropia negativa) no sistema. O problema é que o custo dessa brincadeira é a sua sanidade.
Gastamos fortunas em infraestrutura para sustentar essa mentira organizada. O ambiente corporativo tenta compensar o vazio existencial com objetos fetiche. Outro dia, vi uma empresa queimar o orçamento de um trimestre inteiro em teclados mecânicos de última geração para seus programadores, como se o clique tátil e preciso das teclas pudesse, de alguma forma, abafar o grito silencioso de quem sabe que seu código será deletado em seis meses por uma reestruturação de custos. É a tentativa material, quase patética, de sustentar uma estrutura que a termodinâmica já condenou ao esquecimento. A ordem não é gratuita; ela é comprada com o suor frio de quem tem medo do boleto de amanhã e com a eletricidade que queima para manter servidores processando o nada absoluto em alta definição.
Caos
A verdade nua e crua, despida de qualquer romantismo de Linkedin, é que a consciência humana é apenas um “bug” biológico tentando dar sentido ao fluxo irreversível do tempo. Nós chamamos de “carreira” o que é apenas o aumento progressivo da nossa própria entropia biológica: o desgaste das vértebras lombares, a perda da capacidade de se importar com o próximo e a bateria do nosso celular social chegando aos 5% antes mesmo da hora do almoço.
As organizações não evoluem para o bem comum; elas evoluem para não apodrecerem sozinhas. O setor público é o horizonte de eventos dessa tragédia, um buraco negro de eficiência onde a energia morre em processos burocráticos infinitos, e onde a informação entra para ser esquecida em uma gaveta de aço fria. Não existe “propósito” além da manutenção de um gradiente de energia que nos permite comprar comida processada e pagar por assinaturas de streaming que não temos tempo de assistir.
Se você observar bem, o estagiário que corre para entregar um relatório inútil e uma estrela consumindo seu último átomo de hidrogênio antes de virar uma supernova estão fazendo exatamente a mesma coisa: lutando contra a escuridão final através do consumo voraz de recursos. A diferença é que a estrela tem a dignidade de não fingir que está fazendo “networking” enquanto queima até a morte. O que sobra, no final do dia, é apenas o ruído de fundo, o tilintar de copos baratos em um happy hour forçado e a percepção cínica de que toda a civilização é um castelo de areia sendo lambido por uma maré de entropia que não aceita suborno.
Quero ir embora.

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