A continuidade dos negócios é a maior alucinação coletiva do século XXI. Sentem-se, peçam uma dose de algo que não venha com guarda-chuva de papel, e permitam que um velho acadêmico cansado lhes explique por que o plano de contingência da sua empresa é tão útil quanto um cinzeiro numa motocicleta ou um guarda-chuva em um furacão de categoria cinco.
Falamos de “sustentabilidade” e “resiliência” como se fossem virtudes morais ou medalhas de escoteiro, quando, na verdade, estamos apenas descrevendo a teimosia patética de um sistema biológico em não se tornar poeira. O que os CEOs chamam de “visão estratégica”, a termodinâmica chama de “estado estacionário fora do equilíbrio”. Uma organização não é uma estrutura sólida, um monumento ao ego; é um redemoinho num bueiro entupido. Se a água parar de girar, o redemoinho morre e o que sobra é apenas o lixo boiando. Mas, no mundo corporativo, fingimos que o redemoinho é um monumento de mármore, ignorando que o mármore também erode sob o cuspe do tempo.
Entropia: O Boleto que o Universo Cobra
A segunda lei da termodinâmica é a única autoridade que não aceita suborno, nem parcelamento no cartão de crédito. Ela dita que o universo tende à desordem, ao caos e ao silêncio térmico. Para manter uma empresa viva, você precisa lutar contra essa tendência natural de desintegração que começa na sua gaveta de meias e termina no colapso de galáxias. É o que o físico Erwin Schrödinger chamava de “neguentropia”. Para não morrer, você precisa comer a ordem do ambiente e excretar desordem. Em termos de boteco: você precisa devorar o tempo e o dinheiro dos outros para que o seu próprio não evapore.
Pense numa coxinha de rodoviária esquecida na estufa desde a quarta-feira de cinzas. Ela é um sistema complexo de carboidratos e proteínas processadas. No momento em que a estufa desliga, ela começa a perder informação térmica e integridade estrutural. O óleo rançoso se separa, a massa amolece, o recheio vira um experimento biológico perigoso. Uma empresa é exatamente igual. Se você não injetar energia constante — e aqui energia significa o suor de funcionários mal pagos, capital de investidores desesperados e o consumo frenético de eletricidade para manter o ar-condicionado no máximo — ela vira uma massa amorfa de passivos trabalhistas e móveis de escritório usados. A “cultura organizacional” não é algo místico; é apenas o padrão de dissipação de energia necessário para que o cheiro de fracasso não tome conta do prédio antes do fechamento do trimestre. É a diferença entre um corpo vivo e um cadáver: o cadáver é muito mais estável, mas ninguém quer investir nele.
Dissipação: O Custo de Manter o Circo
Ilya Prigogine, um sujeito que via o mundo com uma clareza que faria qualquer consultor da McKinsey chorar no banho, nos ensinou sobre as estruturas dissipativas. São sistemas que só existem enquanto houver um fluxo violento de energia passando por eles. Uma célula, um furacão, ou aquela startup de entregas que queima bilhões de dólares em subsídios de frete enquanto o dono faz ioga nas Maldivas.
A “continuidade” é, portanto, o metabolismo da informação bruta transformada em ação inútil. Para que a organização não vire ruído, ela precisa processar dados e transformá-los em estrutura. Mas veja a ironia: quanto mais complexa a estrutura, mais energia ela gasta apenas para manter as luzes acesas. Chega um ponto em que a manutenção da hierarquia consome mais “neguentropia” do que o valor que ela gera. É o momento em que a empresa vira um burocrata gordo, hipertenso, tentando correr uma maratona usando uma cadeira Herman Miller Aeron que custa o preço de um rim no mercado negro. Ele acredita que a ergonomia vai salvar sua produtividade, mas o assento de tela de alta tecnologia apenas sustenta de forma mais confortável o peso de sua própria obsolescência. É patético ver alguém pagar o preço de um carro popular num pedaço de plástico e tecido técnico só para se sentir um “líder visionário” enquanto espera o próximo e-mail de demissão em massa.
A “informação” nessas organizações não serve mais para a adaptação; serve para o autoengano. As reuniões de BCP são rituais de exorcismo científico, onde tentamos expulsar o demônio da incerteza com gráficos coloridos e planilhas de Excel que têm a profundidade intelectual de um pires.
Metabolismo: Canibalismo de Recursos
A evolução não dá a mínima para a sua empresa. Ela quer que a informação circule, não que o seu logotipo continue brilhando no topo de um prédio espelhado. Se a sua organização morrer e os seus funcionários levarem o know-how para outro lugar, o sistema global venceu e a física sorri. A morte é o mecanismo de reciclagem da entropia, a faxina necessária para que algo menos estúpido possa surgir. Mas o ego humano — esse erro de programação que nos faz acreditar que somos o centro do cosmos — insiste na imortalidade jurídica.
O que chamamos de “crise” é apenas o sistema atingindo um ponto de bifurcação termodinâmica. Ou ele se reorganiza num nível de complexidade ainda mais caro e instável, ou ele colapsa em uma pilha de processos judiciais. E, honestamente, a maioria das organizações hoje em dia são como baterias de smartphone compradas em camelô: elas dizem que estão em 100%, mas bastam cinco minutos de uso intenso, ou uma leve brisa de mudança no mercado, para que a voltagem caia para zero e o sistema apague, deixando você na mão no meio de uma rua escura.
A lógica é fria e cheira a metal. Não existe “propósito”. Existe fluxo. Quando o fluxo de informação para de ser metabolizado em ação e vira apenas ruído de PowerPoint e reuniões de alinhamento, a estrutura dissipativa começa a desmoronar por dentro. O sistema para de exportar desordem para o ambiente e começa a sufocar nela mesma, como alguém tentando respirar dentro de um saco plástico.
Dá vontade de rir, se não fosse pelo fato de que todos nós estamos presos dentro dessa máquina térmica ineficiente, tentando desesperadamente convencer o universo de que essa bagunça toda faz algum sentido enquanto os boletos vencem. Garçom, a conta. E nem tente me oferecer um programa de fidelidade; minha existência já tem obsolescência programada o suficiente.

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